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O alto preço de não bastar a mim mesma.

Pensei, por muitos anos, que ser amada era performar. Muito nova eu pensava “se eu fosse mais inteligente, ou pudesse fazer algo especial” talvez alguém perceba que eu tenho valor.

Talvez alguém entenda que sou digna e, finalmente, me ame!

Assim, passei a imitar a menininha de um comercial de TV e dormir com as cobertas perfeita e a mãozinha debaixo do travesseiro.

Quando me pediam para economizar água eu tomava banho correndo. Quando me disseram que eu precisava ajudar, eu dava o meu melhor.

Me tornei indispensável. Não por ser eu mesma, mas por ser útil. Me incomodava chegar num lugar e logo perguntarem se eu levei o tarot porque me fazia perceber isso. Mas eu pensava “melhor que nada, né”? Pelo menos me consideravam para mais uma conversa ou uma festa.

De “pelo menos” em “pelo menos” moldei uma personalidade permissiva demais. Arroz de festas em que era convidada por educação. Aquela que podemos falar na cara “você está muito gorda” ou “eu acho que você deveria…”. Eu ouvia, agradecida, pelo menos pensaram em mim..

Me falavam “você tem potencial para mais” mas eu não entendia esse “mais”. Me julgava fraca e carente. Precisava de um homem, de um conselho, um áudio de 9 minutos, precisava ser vista a todo custo.

Mas quando você dá tanto poder aos outros … meu Deus, nem queiram saber. De repente todo mundo quer algo de você e você está só correndo de um lado para o outro atendendo um monte de demandas só para não deixar de ser amada. “Eles não podem perceber que no fundo eu preciso deles”.

…..

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O alto preço de não bastar a mim mesma.

Aceitei migalhas. Emocionais. Economicas. Sociais.

Nunca fui “a chata”, nunca entrei em conflito. Aguentava coisas que, nossa: gente que se fazia de esperta e especialista para cima de mim. De mim! Superdotada. Medium. Ouvia cada asneira mas seguia calada pensando “deixa para la”. E doía. E eu andava com toda aquela dor debaixo do braço, das pernas, da papada.

As palavras que nunca foram ditas. Os “eu te amo” que eu nunca escutei e nem tive coragem de dizer. O tanto de trabalho, de ódio, de espera, de expectativa que eu precisava aturar para não me perder. Mas foi tentando me não me perder que eu me adoeci tantas vezes.

Essa noite sonhei que mudava de estado. Estava completa (eu era um homem, uma mulher e uma criança) dentro de um enorme caminhão rumo a uma montanha muito alta. Era uma travessia, a travessia que estou fazendo agora. A travessia da menina que não era vista para a mulher que pode, realmente, se mostrar.

A mulher glamourosa todo mundo conhece. O que eu escondo mal e porcamente era o que eu considerava ser fragilidade. Meus sentimentos e minha vulnerabilidade. Coisas que fui ensinada a chamar de fraquezas. “Eu te amo”, “estou com raiva”, “esse é o meu limite”. Escondi numa camada grossa de beleza e de gordura. Escondi falando para os outros o que eu gostaria de ouvir. Escondi chorando baixinho no travesseiro. Noite após noite. Eu não conseguia entender que a minha força estava, não em carregar mais uma caixa, mas em sentir e comunicar isso. Não somente engolir, meter tudo lá dentro com mais um copo de coca cola. Mostrar que tenho dias de guerra e dias de paz. Que preciso de um olhar de admiração assim como uma critica - se ela for construtiva e não um espelho da propria pessoa. Que palavras ruins doem. Que não, você não pode fazer isso comigo. Não, eu não vou fingir que não sinto nada. Porque eu sinto. Sinto muito.

Peço perdão e me perdoo. Me perdoo por tudo que fiz a mim mesma porque eu estava lá e sei porque fiz. E sei que agora não vou mais agir assim.

Preparem-se para a “chata”, a “dificil”. A que não vai abrir mão de nada. A que não tem medo das suas palavras. Se falar, vai ouvir. Não porque sou reativa mas porque me respeito. E sim, estou abrindo a temporada de exigir isso também dos outros. De todos. De você, de vocês. Quero prazos, respostas, dados. Quero resolver. E quero ser totalmente, loucamente, genuinamente amada só por ser eu mesma.

 
 
 

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